Aceitação corporal: quão longe ainda estamos?

Aceitação

Já há algum tempo que não escrevia nada aqui no blogue, mas a pandemia despertou-me para certos temas que me são sensíveis e, por isso, não há melhor forma de voltar do que falar de aceitação corporal.

Nas últimas semanas tenho estado atenta a uma situação que tem acontecido, sobretudo, no Tik Tok e que me deu aqui um gatilho para um desabafo.

A situação de que falo é a censura de vídeos de várias influencers, como a Danae Mercer, onde estas mostram o seu corpo, sem tabus. Esta censura deve-se, de acordo com a plataforma, à partilha de conteúdos com nudez, o que nem sequer corresponde à realidade pois os vídeos são feitos em lingerie ou roupa de banho.

No entanto, apesar de o Tik Tok ser muito proativo a bloquear influencers que mostram o seu corpo na plataforma, apenas o faz para aquelas com corpo fora do padrão. A Sara Sampaio fez um excelente e necessário vídeo, a mostrar que corpos magros não são perfeitos e que a perfeição que nos é muitas vezes vendida em capas de revista pode ter apenas a ver com a escolha dos ângulos certos, já dizia também a Tyra Banks.

O vídeo da Sara não foi apagado ou bloqueado porque a Sara, apesar de ser (afinal) “uma de nós”, é magra, e apesar de ter ângulos menos favoráreis (como se fosse possível, não é?) continua a ter um corpo magro e dentro do padrão. Isto não acontece quando o mesmo tipo de partilha é feito por pessoas com um corpo já mais fora do padrão.

Ora, numa plataforma que chega sobretudo a um público muito jovem, como crianças e adolescentes, choca-me este tipo de comportamento e deixa-me triste hoje ainda ter de estar a debater este assunto, até porque este já nem devia ser propriamente um assunto.

Sei que pouco, ou nada, me tenho expressado sobre este assunto em público, mas como alguém que lida com problemas de autoestima e body image desde, pelo menos, os 12 anos, esta situação afetou-me especialmente e escolhi não ser mais conivente com a mesma.

Acho que está mais do que no momento destas plataformas, que chegam a milhões de criaças e adolescentes, começarem a cultivar crescentemente um senso de aceitação e normalização em relação a todos os tipos de corpos.

Felizmente quando eu tinha 12 anos não havia redes sociais como há hoje e não existia o conceito de influencer que hoje existe, mas existiam revistas, havia televisão e sabem o que é que eu não via lá? Pois é, pessoas com corpos que me fizessem sentir representada.

Hoje olho para trás, para fotos antigas, e acho-me tola por achar que era sequer gorda, mas essa ideia foi plantada na minha cabeça por não ter um corpo dentro do padrão e isso criou em mim um sem número de inseguranças contra as quais, aos 27 anos, ainda luto e que influenciam pequenas coisas no meu dia a dia, mesmo que de forma consciente não me aperceba.

Com isto o que quero dizer é que temos de parar de usar a bandeira da saúde de forma a fazer body shaming a quem tem corpos fora do padrão, começar a ter mais empatia pelo outro e finalmente trazer para a ribalta representatividade e aceitação de todos os corpos como corpos normais!

Este mote é especialmente imperativo para quem tem plataformas que chegam a milhões de pessoas e que têm o poder de começar a moldar a mentalidade dos jovens e crianças e mostrar-lhes que está tudo bem em ser magro e estar no padrão, mas também é ok não ser.

Imagem: https://br.freepik.com/vetores/pessoas

Leave a Reply

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.